
Me perguntou, o Padilha, de onde vinha a minha verve para o jornalismo?
Lembrei que meu avô, Estevão Flôres, era jornalista. Embora não o tivesse conhecido, ouvia de minha mãe relatos de suas "aventuras" pela fronteira do Uruguai. Uma delas me impressionava sobremaneira. Vovô Estevão era militante comunista e num determinado período da vida teve que fugir para o Uruguai, do outro lado do rio. O PC no Uruguai sempre foi legal só ficando proscrito depois do golpe militar de 1973. Meu avô teve um jornal bilíngue, em Artigas, chamado O Internacional. Façanha que repeti 40 anos depois.

Numa tarde de 1963 sou surpreendido com dois caminhões que estacionaram em frente a nossa casa, em Quaraí. Começaram, ao comando do meu pai, a descarregar máquinas impressoras, guilhotinas, picotadores, cavaletes com gavetas tipográficas e mais uma variedade de equipamentos impensáveis naquele meu universo aos 8 anos de idade, lá em Quaraí, o começo do mundo.
No meio de tudo uma caixa atraiu a minha atenção. Quadrada, 1m x 1m, tinha 15 cm de altura. No meio de tanta agitação, gente descarregado máquinas pesada, ordens e contra-ordens gritadas, rampas de madeira improvisadas onde deslizavam equipamentos de cima do caminhão, cordas e gente diferente. Eu estava fascinado. Andava no meio daquela balbúrdia de um lado para outro como, louco atrapalhando e tropelando as pernas dos trabalhadores. Era uma tipografia. A primeira de Quaraí. Se chamou Tipografia Alvorada.
Não perdia a caixa de vista. Quando a desceram ouvi recomendações para que tomassem cuidado para que não se abrisse. Foi carregada com cuidado e com cuidado encostada, em pé, nos fundos da garagem. A minha curiosidade aumentava ainda mais e eu arrodeava a caixa toda a vez que podia. Perdi a conta das vezes que meu pai me mandava sair da frente pois estava atrapalhando. Era tarde, eu já era parte daquele circo. Já estava misturado a tipos de chumbo com antimônio, galenas, formas, espaçadores, ramas e o cheiro de uma lata que caiu e esparramou tinta vermelha pelo chão da garagem. Ah! O cheiro da tinta. O cheiro da gráfica. Aquele que acompanha todo o impresso até chegar na rua e nas mão das pessoas.

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Mô Caro,
ResponderExcluirquando me perguntaste na sexta-feira sobre a tua 'caixa' contada em prosa pros jovens besouros da Unisul, papo reproduzido em 'verso' aqui, não tive coragem de comprometer a 'sobriedade' e dizer que 'nossas caixas' - de todos nós - guardam corês que não desbotam... lembrei de minha mãe e do sótão na `casinha`de madeira com uma biblioteca 'escondida' de meu avô, um alemão de olho cinza claro, quase transparente que cultivava orquídeas e frutíferas... possível catarse redentora de um sacaneado como poucos pela vida (não conheço alguém que tenha sido mais que ele)